O coro infantil: contextualização e perspectivas




Gisele Corrêa da Cruz
UNIRIO/MESTRADO/PROEMUS

Resumo
O presente texto aborda o coro infantil como sendo uma atividade fundamental para o desenvolvimento da voz da criança. Após o levantamento dos benefícios sociais e musicais advindos da prática vocal, segue-se a constatação da existência, na atualidade, de uma grande oferta para a prática coral infantil. Observa-se, porém que, proporcionalmente a essa oferta, não há uma adesão representativa e os possíveis motivos são discutidos, sendo a realização de ensaios produtivos apontada como um dos principais. A terceira e última parte do texto traz reflexões sobre o resgate e atualização dessa atividade e apresenta, como ferramenta auxiliar, o projeto em andamento no Mestrado Profissional em Ensino das Práticas Musicais (PROEMUS) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), de criação de um site que ofereça orientações para interessados em organizar e conduzir um coro infantil.
Palavras chave: voz; prática vocal; coro infantil; ensaio; regente; educador.

Abstract
The present text approaches the children's choir as a fundamental activity for the development of the child’s voice. The setting up of the social and musical benefits derived from vocal practice is followed by the evidence of both, the existence and availability of a large number of choral practices for children. It is noted, however, that to such offer there is no proportionately representative adhesion and the possible reasons are discussed, being the realization of productive trials pointed out as one of the main ones. The third and last part of the text brings reflections on the rescue and updating of this activity and presents as an auxiliary tool the project in progress in the Mestrado Profissional em Ensino das Práticas Musicais (PROEMUS) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), creating a website that offers guidelines for those interested in organizing a children's choir.
Keywords: voice; vocal practice; children's choir; rehearsal; conductor; educator.

A voz: uma ferramenta, várias funções
As muitas possibilidades de utilização da voz, como instrumento musical foram percebidas por vários pedagogos musicais do século XX. Edgar Willems e Zoltán Kodaly, por exemplo, destacam-se pelo uso significativo da prática vocal em suas metodologias. Segundo Paz (2013:250), para Willems a questão mais importante em relação a prática do canto é “a qualidade da emissão ligada à afinação” e, para tanto, emprega a canção de forma ampla, cuidando “desde a postura física, a qualidade do acompanhamento”. Já Kodaly idealizou um sistema de ensino musical estruturado em sua grande parte no uso da voz. A professora Marisa Fonterrada (2003:143) resume em linhas gerais a metodologia de Kodaly como sendo “um método de educação musical cujo objetivo é ensinar o espírito do canto a todas as pessoas, além da alfabetização musical para todos, trazendo a música para o cotidiano, nos lares e nas atividades de lazer, de modo a formar público para a música de concerto.” 

Fonterrada também menciona Villa-Lobos, que, durante suas viagens à Europa(1), tomou conhecimento das metodologias que estavam sendo ali utilizadas e, após seu retorno ao Brasil, iniciou um movimento para o ensino em massa da música. A mesma autora (2003:196) descreve as características do método húngaro que encantaram Villa-Lobos:

"O uso de material folclórico e popular da própria terra; a ênfase no ensino de Música por meio do canto coral, o que, sem dúvida, democratizava acesso a essa arte; o uso do manossolfa- conjunto de sinais manual destinado a exercitar a capacidade de solfejar dos alunos."

A esse movimento criado por Villa Lobos juntaram-se outros colaboradores, como o paraibano Gazzi de Sá, que participou da implantação do Canto Orfeônico(2) (2013:26) e posteriormente desenvolveu seu próprio método de educação musical onde a utilização da voz destaca-se como um dos elementos principais da sua metodologia.

Violeta Hemsy de Gainza, (1964:229) educadora musical argentina, também ressalta a importância do canto, sobretudo na escola de educação formal:

"O canto constitui-se, sem nenhuma dúvida, na atividade mais importante na escola. Todas as crianças se interessam pelas canções quando são bem escolhidas: e estas, ao mesmo tempo, que despertam e nutrem a sensibilidade lhes dão oportunidade de adestrar o ouvido e a voz, fornecendo um rico material para aprendizagem consciente dos elementos melódicos e rítmicos."(3)

A relevância do cantar também tem gerado interesse em outras áreas do conhecimento e chamado a atenção de outros profissionais como neurologistas, sociólogos e psicólogos, o que pode ser verificado pela organização de associações voltadas para o estudo das implicações entre a prática musical e o desenvolvimento humano, e pelo grande volume de publicações e pesquisas nessa direção. Um exemplo é o International Music Education Research Center (iMerc), espaço comunitário virtual dedicado à pesquisa interdisciplinar em música e ciências sociais dirigido pelos Professores Graham Welch e Evangelhos Himonides, do qual participam também as professoras Lucy Green e Susan Hallam. Especialista no desenvolvimento do canto infantil e estudioso do canto na educação musical, Welch declarou em entrevista ao jornal Folha de São Paulo(4) que cantar é uma atividade física, psicológica, social e musical. Afirmou, também, que diferentes sistemas modulares no cérebro são usados para lidar com as características musicais do canto, que compreende diferentes alturas, ritmos, e o texto da música. Segundo ele “há um entrelaçamento dos sistemas nervoso, endócrino e imunológico”. Entrevistada na mesma matéria, a neurologista Paula Viana Wackermann acrescenta que “acredita-se que estados mentais positivos e de relaxamento induzidos pelo canto sejam responsáveis por um aumento na secreção de imunoglobulina A, responsável pela defesa contra as infecções bacterianas ou virais das vias aéreas superiores”.

Hallam relata, em pesquisa intitulada The Power of Music, que ouvir música tem uma ampla gama de efeitos fisiológicos sobre o corpo humano, incluindo alterações na frequência cardíaca, respiração, pressão arterial, condutividade da pele, temperatura da pele, tensão muscular e respostas bioquímicas. O Music Education Works! também um ambiente virtual, disponibiliza numerosos relatos de pesquisas nessa área, muitas delas demonstrando que o cantar proporciona melhoria da capacidade pulmonar e do sistema imunológico, o fortalecimento dos músculos abdominais, a tonicidade dos faciais e o alivio do estresse.

Observa-se porém, que não raro há uma tendência em se relacionar esses benefícios fisiológicos advindos da prática musical a aspectos sociais e emocionais, sem no entanto, apresentar-se para isso a devida comprovação científica. Com efeito, para aqueles que convivem com a prática vocal coletiva, a importância dessas questões parece um tanto óbvia, inerente a uma atividade que por sua natureza deveria promover a total integração entre indivíduos. Assim, são pródigos os textos, como o da fonoaudióloga Mara Behlau (1997), que, respaldando-se na sua vivência junto a grupos corais, afirma que “quando se canta em conjunto, aprende-se harmonia, equilíbrio, domínio de si mesmo, trabalho em equipe e, acima de tudo, respeito pelo outro”. Outro exemplo é conferido pela maestrina Rita Fucci Amato (2007:99) que reforça esses aspectos de maneira generalizada declarando que:

"O canto coral configura-se como uma prática musical exercida e difundida nas mais diferentes etnias e culturas. Por apresentar-se como um grupo de aprendizagem musical, desenvolvimento vocal, integração e inclusão social, o coro é um espaço constituído por diferentes relações interpessoais e de ensino–aprendizagem."

Ora, nem todo grupo, apenas por constituir-se como tal, apresentará as condições ideais para que seus participantes se desenvolvam de maneira integral, uma vez que podem ser inúmeras as variáveis de composição e funcionamento de um grupo. Por essa razão, tais afirmações, em que pese serem proferidas por respeitáveis profissionais, não constituem argumentos suficientemente consistentes para creditar à atividade coral toda sorte de benefícios.

Neste trabalho não se pretende negar os aspectos sociais que permeiam as atividades coletivas de maneira geral. Entende-se, porém, que exatamente por serem temas absolutamente relevantes, tanto que têm despertado o interesse em outras áreas do conhecimento, o ensino do canto coletivo deve ser observado de forma mais crítica, baseado em pesquisa interdisciplinar, que pode envolver a Psicologia, a Sociologia, a Neurolinguística e outras áreas, visando a desenvolver um embasamento cientifico cada vez mais sólido. É importante pontuar que questões transcendentes ao conhecimento musical devem ser constantemente consideradas pelo regente de coro na sua prática frente aos grupos, e que seu preparo e conhecimento nesses outros aspectos é tão relevante quanto no técnico-musical.


Prática Coral: oferta e demanda
Observa-se, portanto, que variados profissionais como educadores, regentes, professores de canto, e pesquisadores, recomendam a prática vocal, coletiva ou individual, apresentando justificativas diversas. Somando-se isso ao fato da educação musical através do canto ser adaptável a qualquer contexto socioeconômico, “já que o material necessário para cantar é nosso próprio corpo” (ALMEIDA p. 106), percebe-se, atualmente, que há, principalmente nos grandes centros urbanos, uma quantidade generosa de oportunidades para crianças e jovens participarem gratuitamente de grupos corais, mais especificamente de coros infantis, através do programa de várias instituições. Ao examinar-se apenas o Estado de São Paulo, podem ser citados como exemplos, o Projeto Guri(5) e o Instituto Baccarelli(6) que somam mais de 300 grupos corais (aproximadamente 9.000 vagas). Há, além deles, a iniciativa da Prefeitura de São Paulo que instituiu em 2015 o Projeto Canta São Paulo(7), promovendo a criação de corais infantis em todas as Escolas Municipais de Ensino Fundamental e a Jornada Coral(8) que fomenta apresentações corais diárias na cidade de São Paulo.

No entanto, ao lado desse cenário tão promissor de oportunidades para o fazer musical coletivo, alguns autores pontuam que a sociedade contemporânea já não entende a atividade vocal como sendo uma prática inclusiva, democrática e, até sob certo ponto de vista, orgânica. Na análise de Almeida (2013:104) o cantar converteu-se em uma habilidade que precisa ser aprendida, orientada.

"Na sociedade contemporânea ocidental, o canto está desaparecendo do dia a dia das pessoas e dos encontros espontâneos, concentrando-se somente nos eventos profissionais ou na vida de poucas pessoas da sociedade, em lugares específicos e veiculados pela mídia. Encontra-se pouco canto como expressão espontânea, um bem comum da comunidade e compartilhado por todos."

Outros autores discutem ser perceptível a questão dos entraves ou da inibição ao cantar, mesmo ante o difundido mito de que o povo brasileiro possui grande potencial musical. As fonoaudiólogas Mara Behlau e Maria Inês Rehder (1997) reforçam esse contraste ao declarar que “infelizmente a realidade brasileira não estimula tais práticas (vocais) apesar de sermos um país tão musical” e a professora Silvia Sobreira (2013:24) que desenvolve extenso trabalho e estudos sobre a prática vocal afirma “que nosso povo em geral tem menos vergonha de dançar do que de cantar.”

Patrícia Costa (2008:1), regente à frente de coros juvenis em escolas na Cidade do Rio de Janeiro, apontou, através de pesquisa realizada com adolescentes, a presença de forte resistência à atividade coral. O motivo é a frequente associação à música erudita e dessa forma atrair para si o rótulo de atividade conservadora, tradicionalista, praticada por pessoas pouco atraentes e inexpressivas dentro de seu grupo social. Na opinião da regente há também outros aspectos que depõem contra o gosto pela prática coral:

"O gosto da atividade pela faixa da terceira idade ou ainda a identificação como uma prática infantil, aliado à invisibilidade na mídia, em nada incentiva os jovens a perceberem no canto coral a possibilidade de veículo de expressão de sua faixa etária."

É curioso observar que tal percepção não incide apenas sobre os dias atuais. Ermelinda A. Paz (2013:27) ao apresentar métodos de musicalização sólidos que poderiam ter sido amplamente adotados em nosso país, aponta que um dos entraves foi o fato de algumas dessas metodologias serem baseadas na prática vocal. Ela diz sobre o método de Gazzi de Sá:

"Em princípio, podemos dizer que, nesse método, a voz é um elemento da maior importância e talvez, por isso mesmo, ele não tenha tido receptividade. O Brasil não é um país de tão forte tradição oral como a Hungria, onde as pessoas desde a primeira infância cantam e onde se encontrar para ler música, à primeira vista, é um hobby dos mais cultivados."

A mesma autora (1988:84,85) transcreve o depoimento do professor e escritor Guilherme de Figueiredo, ex-reitor da UNIRIO, sobre o canto orfeônico:

"O Brasil não sabe cantar. Villa-Lobos começou com essa ideia em 1930, quer dizer, já lá se vão 57 anos. E o Brasil, em 57 anos, cá pra nós, está cantando cada vez menos, está cantando cada vez pior.
(...)
Hoje o brasileiro que canta bem, canta sozinho. Quando se juntam duas ou três pessoas para cantar, sempre cantam em uníssono. Ninguém faz a segunda, terceira voz, porque ninguém aprendeu isso no colégio."

Reafirmando a problemática do canto nas escolas acrescenta-se também a declaração do professor José d’Assumpção (apud. Lakschevitz 2009, p.87) de que com pequena parcela de erro, “pode-se dizer que nas escolas secundarias do Brasil onde se consegue realizar alguma coisa com o canto orfeônico, é exclusivamente em razão da necessidade de nota para promoção de final de ano, e da exigência do professor. Porque aceitação espontânea e gosto pela matéria não existem”.

A professora Victoria Moon Joyce, que analisa a atividade vocal nos dias de hoje por um viés sociológico, considera que a maioria dos indivíduos entende o cantar como algo que pessoas comuns não praticam. Para ela, essas pessoas acreditam que o ato de cantar está restrito apenas àquelas que tiveram instrução para isso, ou são detentoras de talento especial. Consequentemente, há uma tendência a se considerar que o não cantar bem está associado a valores como falta de cultura, incompetência e anacronismo. Com receio dessa exposição muitas pessoas têm preferido a posição de espectadores, deixando de ser protagonistas de sua atuação vocal. Profissionais da área coral comentam ser bastante comum, na atualidade, encontrar pessoas que se auto rotulam como cantores ruins ou desafinados, e se excluem mesmo antes de se envolver com a atividade. Para Gabriel Levy e Berenice Almeida (2010:19) “muitas dessas impressões sobre a própria voz são consequência da falta de um processo contínuo de desenvolvimento vocal, seja na escola, na família ou nos encontros sociais”. Almeida (2014:106-107) levanta outros aspectos dessa questão:

"Infelizmente, muitas crianças, ainda pequenas, já se consideram desafinadas e por consequência não gostam de cantar. Com certeza esses preconceitos a respeito da própria voz não partiram de uma percepção delas, mas de distorções no ambiente familiar e mesmo escolar. Muitos adultos consideram-se nulos musicalmente e não se permitem cantar, nem mesmo sozinhos; não por falta de aptidão, mas por uma orientação infeliz de professores e pais, por falta de um ambiente familiar mais musical ou mesmo devido a uma questão social mais ampla, como da ausência do canto espontâneo no dia a dia das pessoas."

Um outro aspecto considerado por Sobreira (2013:13) é a possibilidade de educadores musicais evitarem a prática vocal por associá-la a “elementos adestradores” que seriam contrários aos padrões educacionais da atualidade. Criticam também o canto coletivo justificando que “em prol de um resultado coletivo o cantor perderia a sua individualidade, uma característica que também tem um papel disciplinador”.

Porém, no que concerne à utilização do canto nas escolas, há mais uma questão a ser considerada: a constatação de que faltam no Brasil propostas consistentes para a sala de aula, sendo que seu emprego inadequado pode comprometer a formação musical do indivíduo e o sucesso da atividade. Nos cursos de curta duração para capacitação de profissionais já atuantes e cursos de formação, ministrados por essa autora(9), tem sido possível verificar-se a falta de conhecimento e preparo dos educadores em relação às possibilidades da prática vocal nas aulas de música. Muitas vezes por ser o único recurso disponível, o educador opta pela utilização da música vocal porém sem a formação adequada torna-a desinteressante e empobrecida.

Percebe-se, assim, uma situação em que as oportunidades para cantar em um coro infantil são maiores do que o interesse das próprias crianças e onde a grande maioria dos profissionais está despreparada para lidar com esse público. Esse panorama peculiar sugere a necessidade de um caminho diferente, que construa uma ponte de acesso ao canto para indivíduos que nunca tenham tido uma experiência vocal anterior e que apresente aos regentes mais ferramentas para conduzir um trabalho coral. Para tanto, é necessário que a prática vocal se dê em um momento agregador onde as pessoas possam descobrir musicalmente suas potencialidades vocais e, desenvolver a capacidade de fazer música.


O ensaio como resgate da prática coral
São muitas e variadas as definições encontradas para o termo ensaio. No Grande Dicionário Larousse da Língua Portuguesa assim como no Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, aquelas que se relacionam à atividade artística poderiam ser resumidas como “treinamento por meio de repetições que objetiva um aprimoramento.”

Na área coral há definições mais abrangentes. O maestro Carlos Alberto Figueiredo (2006:14,16) considera “o ensaio, essencialmente, um momento de transformação, tanto do coro como do regente.” Outro experiente profissional da área, o maestro Samuel Kerr (2006: 205) amplia esse significado. Para ele “o próprio ensaio pode ser a razão de existir de um coro”; o momento em que as pessoas poderão recuperar sua capacidade de fazer música “independente do fato de saberem ou não cantar.”

A maestrina Elza Lakschevitz (2006:75), cuja carreira destacou-se frente a coros infantis, ressalta a importância do ensaio por ser o momento e espaço onde o regente desenvolve a sua filosofia, define as atitudes e procedimentos que irão pautar seu trabalho: “O ensaio é quando a gente fica a maior parte do tempo juntos. Ali o regente tem a chance de trabalhar com a criança em todos os sentidos”. Em consonância, a professora Lucy Schimiti (1997:121), também regente na área de coro infantil, afirma que “a qualidade do trabalho do regente é revelada muito mais pela qualidade de seus ensaios, que pelos concertos que realiza!”. Schimiti (2016:128) ainda recomenda:

"(...) pensemos na amplitude de nossas responsabilidades e façamos de nossos ensaios momentos que conduzam a uma verdadeira experiência estética; que haja um deslumbramento em sua realização, permitindo um crescimento pessoal artístico-cultural-musical que estimule o cantor nos passos de uma caminhada musical de qualidade."

O ponto central é que, sabe-se, há muito, da importância do ensaio e que a existência de um coro é constituída muito mais por ensaios do que por apresentações. Essa realidade é ainda mais intensificada nos coros infantis ligados às escolas e instituições sociais. Porém há dificuldade em valorizar e operacionalizar esses encontros.

O professor Ruy Botti Cartolano (1968:84), ao abordar o ensaio do Orfeão, escreve que:

"Aos alunos cabe aceitar com prazer e interesse as repetições exigidas com o fim de alcançar o objetivo em vista. Ao professor cabe criar as condições favoráveis e necessárias, a esse fim, renovando sempre o processo de ensino, evitando dessa forma a ideia de rotina e monotonia."

Este texto retrata, evidentemente, o pensamento de uma sociedade que considerava a criança sem nenhuma opção de questionamento, totalmente à mercê das decisões do adulto que estivesse conduzindo sua educação. Os profissionais professoras ou regentes, que no presente encontram-se à frente de grupos infantis percebem que as crianças nascidas nas últimas gerações, os chamados nativos digitais(10), são diferentes daquelas nascidas antes do avanço tecnológico das últimas décadas. Desde muito novas são estimuladas à participação e aos questionamentos, têm acesso a muitas informações, embora nem sempre as mais pertinentes e, consequentemente, são menos pacientes com processos repetitivos e de longa duração. A disciplina e a concentração sofrem os efeitos imediatos desse novo comportamento e o discurso verbal que quiser ser efetivo deverá se ater à minutos. O processo de aprendizado dessas crianças precisa de estímulos visuais para fixar uma experiência sonora em algo concreto.

Curiosamente, mesmo sendo épocas diferentes e os alunos da atualidade absolutamente distintos daqueles da época do professor Cartolano, um trecho da recomendação aos professores de então continua atual: cabe ao profissional, regente ou professora, criar condições favoráveis ao processo, renovando-o afim de evitar o desinteresse. Talvez esteja aqui a indicação de um caminho para a equação do problema discutido: crianças, em sua maioria mais ativas, mas também mais distantes da atividade vocal por não serem estimuladas musicalmente no ambiente familiar ou escolar; e regentes, que não possuem ferramentas suficientes para cumprir essa proposta. Apoiada em sua larga experiência profissional, esta autora vem percebendo nos últimos anos que há uma grande demanda por orientações e atividades para coro infantil por parte de regentes e educadores. Estes, compreendendo a importância dessa atividade, estão interessados em procedimentos que os auxiliem na condução de ensaios mais prazerosos e eficientes. Almeida (2013:105), que também atua na formação de professores, compartilha da mesma opinião:

"A maioria dos educadores não possui uma formação musical mínima, tanto na sua trajetória educacional como alunos quanto na sua formação pedagógica, que lhes possibilite cantar e realizar jogos musicais com maior confiança e liberdade.
O canto coletivo muitas vezes é desenvolvido de forma monótona, repetitiva e sem vivacidade."

Para os regentes de coro infantil brasileiros falta, mais ainda, material referencial para o desenvolvimento do seu trabalho, uma vez que, em pesquisa realizada paralelamente à elaboração desse texto, detectou-se que o repertório e a bibliografia existentes em português não têm preenchido essa lacuna. Profissionais que desejam realizar um trabalho vocal com crianças necessitam de publicações que apresentem não apenas novos jogos ou canções para o repertório do regente, mas principalmente despertem sua consciência de educador. No ensaio de coro não é suficiente que a criança aprenda apenas o repertório, é necessário ir além da voz. É preciso, antes que se perca, despertar a importância da participação coletiva, promover a autonomia tanto na linguagem musical como nas relações pessoais, preocupar-se também em desenvolver a percepção do próprio corpo, e do limite do outro. Também é importante que o material proposto recupere o prazer de cantar, e valorize a execução primorosa de uma melodia simples ao invés da canção complexa com negligência. Além disso, é fundamental pensar em opções para motivar as repetições, que acontecerão inevitavelmente, afim de que cada solicitação seja revestida de sentido, criatividade e humor. Não se pode esquecer que, materiais de apoio ao regente devem enfatizar a necessidade de preparo deste, tanto como músico, sempre em busca de excelência, como educador dedicado que se prepara e estuda para realizar os ensaios. Dessa forma, pode-se otimizar o tempo dos encontros, propondo apenas as atividades necessárias, respeitar o horário e o limite de atenção da criança e, conquistar uma autoridade natural não pelo rigor da sua postura mas pelo reconhecimento de sua liderança respaldada pelo seu preparo e conhecimento. O regente deve ser conscientizado de sua responsabilidade por proporcionar constantemente, aos seus cantores, uma relação prazerosa com a música, um repertório de boas lembranças emocionais e estéticas, a apropriação de suas vozes como descoberta de suas identidades vocal e artística. Sobretudo saber lidar com as vozes que tem à sua disposição e não se lamentar por não contar com aquelas que gostaria.

Para o cumprimento dessa multiplicidade de ações, que pode transformar a relação das crianças com sua voz, com o coletivo e com o próprio resgate da atividade coral, o regente dispõe apenas do ensaio, momento instigante e desafiador que se repete nas rotinas de quem se compromete com o canto coral.


Conclusão
Considerando o panorama de possibilidades, a análise crítica da atividade de coro infantil, a pesquisa e levantamento das necessidades, pode parecer um tanto audaciosa a proposta desta autora de realizar, como produto para conclusão do PROEMUS (Programa de Mestrado Profissional em Ensino das Práticas Musicais), um material voltado para a prática da regência de coro infantil. Esse texto aponta para a necessidade de uma contribuição que atenda ao perfil da criança do século XXI e que também seja acessível e de fácil utilização para o profissional auxiliando-o na concretização desse momento intenso e fundamental para o coro que é o ensaio.

Assim, o projeto que de início pretendia uma publicação em formato impresso passou, em um segundo momento, para o formato digital. Porém, ao final dos estudos, concluiu-se que a elaboração de um site é a ferramenta mais adequada para compartilhar atividades, repertórios, sugestões e dúvidas, em formatos diversos como áudios, textos, vídeos ou outros que a tecnologia vier a apresentar. É preciso estar atento para as mudanças, e novas demandas ou corre-se o risco de ver uma atividade das mais apaixonantes, eficientes e completas desaparecer sob o estigma do anacronismo.

A complexidade do cenário atual inspira de forma quase pretenciosa este projeto ao mesmo tempo que a consciência sobre tantos desafios aguça muitas incertezas. Porém em meio a essa ambiguidade é possível encontrar um tom sereno sobre a atividade coral na citação do maestro Samuel Kerr (2006:204), que aponta uma promissora expectativa para todo o canto coral e também para coro infantil:

"Veja-se que, quanto mais envelhece o canto coral, mais se nos oferece e está a nos pedir que concretizemos as possibilidades de seu rejuvenescimento, possibilidades estas que, nele, sempre estiveram latentes, pois o canto coral sempre foi uma atividade plural, grávida de significados e, por isso mesmo, perto do eterno. Apenas na aparência, procedimento já esgotado, mas, na verdade, um procedimento artístico fascinante, sempre a realimentar-se de si mesmo."

Essa citação, positiva e afetuosa, aponta para o coro como atividade perene, também observa a necessidade e possibilidade de atualização dessa prática; alinha-se com as razões que motivaram a proposta do projeto anteriormente mencionado. Cantar em um coro infantil é experiência que precisa ser redescoberta através de ensaios musicalmente sólidos e cativantes. O site, Canto e Cantoria, produto elaborado no Mestrado Profissional em Ensino das Práticas Musicais, almeja atender a essa demanda e ser uma eficaz ferramenta de apoio para regentes e educadores que se preocupam em elaborar tais atividades. Por fim, espera também tornar-se um espaço referencial para informação, difusão e intercâmbio entre aqueles que acreditam em todas as formas de aprendizado e desenvolvimento humano que o canto coral oferece.


Notas
  1. A primeira estadia de Villa-Lobos na Europa aconteceu entre 1923 e 1924, e a segunda entre 1927 e 1930 (The Grove Concise Dictionary of Music, 1994:401,402)
  2. Idealizado por Villa Lobos, o Canto Orfeônico é um projeto educativo, voltado para as escolas públicas, caracterizado sobretudo pelo desenvolvimento do canto coral e a utilização de temas populares como repertório.
  3. El canto constituye, sin ninguna duda, la actividad musical más importante em la escuela. Las canciones interessan siempre a todos los niños sin son convenientemente elegidas: éstas, al miesmo tiempo que despiertan y nutren su sensibilidad les dan oportunidad de adiestrar el oydo y la voz y les proveen de um material rico para el aprendizaje consciente de los elementos melódicos e rítmicos. (Tradução livre da autora)
  4. Entrevista que compõe a matéria “Da boca para dentro” de Manuela Minnis publicada na Folha de São Paulo, 19 de abril de 2011. Caderno Equilíbrio p. 8
  5. Mantido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, o Projeto Guri (AAPG) é considerado o maior programa sociocultural brasileiro e oferece nos períodos de contra turno escolar, cursos de iniciação musical, luteria, canto coral, tecnologia em música, instrumentos de cordas dedilhadas, cordas friccionadas, sopros, teclados e percussão, para crianças e adolescentes entre 6 e 18 anos. Atualmente conta com 410 polos distribuídos por todo o estado de São Paulo.
  6. O Instituto Baccarelli, localizado na comunidade de Heliópolis, cidade de São Paulo, é uma organização social sem fins lucrativos, que atende cerca de 1300 crianças e jovens em programas socioculturais. Através de formação musical e artística de excelência, proporciona desenvolvimento pessoal e oportunidade de profissionalização em música.
  7. Projeto Canta São Paulo é uma iniciativa da Secretaria Municipal de Educação em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, sob orientação do Coral Paulistano, que pretende promover a formação de corais em Escolas Municipais de Ensino Fundamental (EMEFs). Para tanto selecionou 500 professores da rede Municipal de Ensino interessados em participar do curso de formação para orientadores musicais com prática de conjunto coral, que foi realizado entre agosto a novembro de 2015. Entre março e dezembro de 2016 os orientadores musicais formados constituirão grupos corais nas escolas, conforme a característica de cada unidade educacional.
  8. De acordo com o site da Fundação Theatro Municipal de São Paulo, “a Jornada Coral é um projeto da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e do Coral Paulistano, que visa fomentar apresentações corais diárias em diversos locais da cidade. Com essa finalidade foram selecionados 30 coros amadores ou semiprofissionais de excelência musical, não vinculados a nenhuma instituição pública ou financiadora, que recebem um incentivo financeiro mensal como forma de manutenção. Em contrapartida cada grupo se responsabiliza por um concerto mensal, que é oferecido gratuitamente ao público paulistano. Em 2017 tanto esse projeto como o anterior foram suspensos por determinação do atual governo.
  9. Desde 1986 esta autora ministra cursos de formação e capacitação na área de coral infantil tendo atuado junto a instituições como a FUNARTE, PROJETO GURI, SESC-SP e Festivais de Música como o de Curitiba (PR), Londrina (PR), Ibiapaba (CE) e Ourinhos (SP). Publicou três livros voltados para a atividade coral infantil: Canto, Canção, Cantoria, como montar um coral infantil, editado pelo SESC-SP 1997/2003; Canto Coral Infanto Juvenil – Básico 1 – Livro do professor. São Paulo:Associação Amigos do Projeto Guri,2011); Canto Coral Infanto Juvenil – Básico 1 – Livro do aluno. São Paulo: Associação Amigos do Projeto Guri, 2013).
  10. Em 2001 Marc Prensky introduziu o conceito de que a sociedade moderna estaria dividida entre nativos e imigrantes digitais. Os primeiros são aqueles que já nasceram na era tecnológica e têm habilidade e fluência naturais para assimilar a linguagem digital que faz parte do seu cotidiano. Já os outros são pessoas mais velhas que teriam “imigrado” para essa realidade depois do desenvolvimento de suas primeiras habilidades cognitivas e portanto, como qualquer “imigrante” apresentam maior ou menor dificuldade para falar um nova língua, no caso se expressarem digitalmente (REVISTA SESC BRASIL – 2015 – nº 18).


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